Era uma vez um jornal...
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Por Renato Andrade

O ritual de passar o café começa e vejo que acabou o açúcar. Adoçar com mel é uma excelente alternativa que de vez em quando adoto, mas o tubinho plástico não exibe nem aquele filetezinho dourado a ser raspado em seu fundo. Parto então para o sacrilégio dos baristas: resolverei a situação com uma moderada colher de chá contendo Nescau.
Começa então a sinfonia dos sons. O incipiente borbulhar da água fervente, o barulhinho do líquido em choque com o frio ao escorrer pela chaleira e o que mais gosto: o som do encontro da água pelando com o pó no filtro. Acho que essa música quente meio que nos abraça, nos levando a aconchegos perdidos e esquecidos.
Depois, a fumaça. É o momento de observar sua dança leve e aproveitar esses segundos para a primeira reflexão relâmpago do dia.
Durante 13 anos, neste momento, estivesse onde estivesse, quase sempre pensava na charge a ser realizada. Era meio que automático.
No ínterim entre coar e retirar o filtro, ia ver se o jornal havia chegado, disponível na capota do carro. A gostosa curiosidade para ver as charges do amigo/colega Thomate e conferir as cores impressas nas que eu mandava. Não mais.
Era divertido imaginar as reações dos leitores pela manhã ao se depararem com nossos gracejos estampados no papel, que logo teria destinos prosaicos e essenciais, como forrar uma gaiola ou enrolar o copo quebrado para evitar acidentes com os profissionais que recolhem o lixo. Acabou em 2018 e ainda sinto muita falta.
Garro a pensar então na importância das artes na vida das pessoas. Será que tem alguma? Essa cosquinha momentânea que a gente faz no cérebro dos cidadãos de bem e nem tanto faz mesmo certa falta na vida deles? Nada. Diferente do café na caneca e do remédio já separado na mesa, uma charge é como esse texto que você lê. Completamente inútil e dispensável.
O problema é que aqui dentro moram alguns monstrinhos irrequietos que precisam fugir de alguma maneira. Eles ficam numa certa algazarra e nessa correria podem esbarrar e quebrar alguns vasos incoláveis.
O jeito então é pegar uma folha em branco, lapiseira e exorcizá-los. Feito o padre Merrin do filme, tento arrancar os demônios desgrenhados que se anunciam e os transformo em ridículas criaturas narigudas e fora de proporção.
Acho que no fim, Deus acaba desenhando por mãos trêmulas e tortas.

