Um quilo de consciência
- Angelo Davanço

- há 6 dias
- 2 min de leitura
Por Renato Andrade

Já estava se sentindo melhor antevendo o buffet naquele restaurante por quilo que há tempos não ia, adorava ficar na dúvida entre o bolinho de arroz ou a mandioca frita, resolvia sempre pegando os dois. Ao se deparar com a vaga ali pertinho dando sopa na concorrida rua o humor deu mais uma subidinha na escala "Richter".
Ultimamente era assim. Tentar sempre vislumbrar uma fresta, um fiapo, um respiro de leveza naqueles dias turbulentos e assustadores. Foi no fechar do vidro (mania mais do que besta de acionar o botãozinho manualmente mesmo que o combalido bólido já possuísse o recurso do fecho automático) que viu o casal.
Almoçavam ali na calçada, dividindo um marmitex que o dono gente boa do restaurante nunca recusava. O sorriso e ameaça de se erguer do homem já trouxe aquele ruidinho ameaçador para o efêmero bem estar que se insinuava... "Saco, vai me pedir grana pra tomar conta do carro...". O olhar do rapaz, porém, trazia certa ternura e pureza e quebrou a expectativa do costumeiro e intimidante "Deixa um dinheiro pra nóis aí tio!".
Caçou umas moedas no console e lhe entregou
-"Deus lhe pague".
-"Amem".
Rumou para o "quilo", mas o roteiro pacífico já tinha sido quebrado, aquele casal meio sujo, talvez sem o banho do dia, com as roupas ensebadas dividindo o rango debaixo da árvore já começava a transformar o ambiente simples do estabelecimento num verdadeiro D.O.M, onde um Atala já o esperaria segurando a mesa preferencial. Nem bolinho de arroz nem mandioca frita, raios.
Foi ao chegar no carro depois de comer que viu as contas a pagar no banco do passageiro. Boa. O banco ali ao lado evitaria a procura de outra rara vaga. Avistando o guardador avisou que só iria pagar umas contas, ocupando por mais algum tempo no "alugado" espaço da via, quando se deu o choque:
-"O senhor quer que eu devolva o dinheiro e me dá de volta depois?".
[...]
"Se meio por cento de nossos políticos tivessem em suas ordinárias vidas uma fração de segundos dessa postura, talvez esse bordel fedido, perigoso, sujo e mal administrado em que nos transformamos fosse um pouco mais civilizado."
[...]
Depois de pagar as contas sacou R$ 50 e novamente veio o turbilhão: "E se comprar crack e cachaça?".
Ao entregar a nota viu o sorriso e o virar de cabeça para a companheira que também sorriu e lhe acenou vagarosamente. Que se dane se ficarem loucos e bêbados. Vão se abraçar, se beijar, talvez rolar pelo chão. Dormir leves e felizes, comentando depois do tiozão esquisito que tinha os zóio vermeio ao dar a grana. Eram um casal e estavam juntos naquela merda toda.
O dinheiro encobria, mesmo de maneira patética e mesquinha, toda a sensação de fracasso que trazia dentro de si.





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