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Troféus sobre quatro rodas

  • Foto do escritor: Angelo Davanço
    Angelo Davanço
  • 25 de jan.
  • 1 min de leitura


Ao longo de tantas primaveras e invernos já presenciei a cena mais vezes do que gostaria. Seja nas quebradas, no centrão ou nas sulistas grã finagens. Já envolveu proletas classe média baixa, emerjas deslumbrados e até a nata da intelectualidade uspiana.


Primeiro a porrada forte na traseira, o barulho muitas vezes assombroso e metalicamente desolador. Os bólidos podem guardar em suas entranhas crianças, idosos ou enfermos a caminho de cuidados. Não importa nunca. As criaturas ordinárias, ao descerem de seus troféus sobre quatro rodas - as conquistas a serem exibidas na saída da escola ou no churrasco anual da firma -, correm esbaforidas para checar o estrago na lataria ou arranhado na tinta.


Em todas tristes vezes em que presenciei o infortúnio, NUNCA se preocuparam com possíveis danos aos seres humanos e estranhos. A atenção dispensada, depois da checagem minuciosa ao patrimônio, é sempre na forma de olhares raivosos que prenunciam desinteligências nas mais variadas escalas.


O teatro com poucos segundos mostra muito. Exibe ali, em via pública, esburacada e suja, a vagabunda mistura de tudo o que somos feitos.

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