Parapopó
- Angelo Davanço

- 23 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Por Renato Andrade

Os dois recém saídos da adolescência que moram nos EUA hoje, resolveram ir a uma loja de brinquedos, daquelas bacanudas para nós tupiniquins, mas até chinfrins para os padrões trumpianos. Compraram várias armas plásticas que cospem canudos de espuma. Armaram um fuzuê daqueles no quintal entre gritos estridentes e trolagens quase incompreensíveis para quem tem mais de 15 anos.
O rapaz esquenta a faca com três maçaricos e quando a lâmina já está laranja como um pôr do sol, corta vários objetos ao meio; de bola de tênis a sabonete, passando por uma vã tentativa num celular. Mais gritos e grunhidos.
O grupo composto por duas garotas e um garoto decidiram que irão encher uma banheira com Nutella. É pote que não acaba mais, mas a empreitada parece fadada ao fracasso. Isso não é motivo para reprimirem os gritos, cada vez mais incontroláveis.
O que liga as três performances é a chancela de vídeos que bombam alucinadamente no Youtube. Milhões de views atestam que a turma de imberbes e nem tanto, adora e quer mais desse entretenimento. A alta tecnologia serve para dar uma cara de improviso a tudo isso. Consumismo extremo, riscos de graves acidentes, desperdício e idiotice pura são palavras que não entraram numa inexistente reunião de pauta entre as engenhosas mentes por trás das façanhas. A fanfarronice parece ter sido friamente calculada. Teria sido?
Agora estamos no final dos anos 80. A precariedade dos aparelhos de TV fazem daqueles caixotões figurantes de um episódio do Chaves. A iluminação quase circense faz os cenários pintados à mão parecerem aquelas telas naifs vendidas em beiras de estradas e arredores de rodoviárias.
A trupe é variada e colorida. O cientista/professor com nariz, óculos, bigodes e sobrancelhas falsas era o que se poderia chamar hoje em dia de multimídia: músico virtuoso acompanhou Elis Regina tocando flauta, flauta doce e arranjando Canção da América no álbum Saudades do Brasil. Ator de talento encenou Brecht e Kurt Weil em Mahagonny Songspiel, foi premiado como melhor atuação no Festival de Brasília no filme Beijo 2348/72, dirigido por Walter Rogério em 1990. Sua encarnação do Amigo da Onça, personagem desenhado por Péricles, nos palcos, beirava a mediunidade. Ali com a criançada ele ensinava arte com materiais reciclados, manipulava e fazia as vozes de vários fantoches, tocava violão ensinando antigas marchinhas e soltava tiradas geniais e cacos desconcertantes que só os “idosos” de 20 e poucos anos pescavam.
Certa vez, ao limpar uns pincéis com um trapinho já deveras castigado pelo tempo, mandou:
-Uau, esse paninho tá aqui na Cultura desde o tempo do Ziembinski!
Quem tem vinte e poucos hoje e boiou favor consultar dona Wiki P.
Em outra ocasião, fez um sketch maravilhoso em cima da marca tampada com fita crepe da cola branca protegendo-a do merchan.
Outra atriz contava histórias em uma bancada minimalista como um cenário de Gerald Thomas, detalhe: utilizava vassoura, funil, caneca, desentupidor e outros variados objetos ordinários do dia a dia para criar os personagens, cada um devidamente dono de uma voz própria feita pela mesma.
Aquele elenco exalava mais vida que o casting de muitas novelinhas teens de hoje.
Tocar bem um instrumento, manipular fantoches de um jeito que lhes davam o divino dom da vida, criar vozes tão díspares que era impossível imaginar terem saído da mesma pessoa, confeccionar origamis, robôs, animais e tudo o que compõe o universo com coisas catadas na lata de lixo, contar histórias, lendas e clássicos da literatura. Ensinar coisas boas e eternas.
Assim era o programa Bambalalão, com Chiquinho Brandão, Gigi Agnelli, Silvana Teixeira, Marilam Salles, Álvaro Petersen, Helen Helene, João Acaiabe, entre tantos e variados talentos. Ademar Guerra e Antonio Abujamra dividiam a direção com outros monstros da dramaturgia.
Saudosismo? Excesso de nostalgia? Pode ser, mas aquele “seu tubo” era bem mais divertido que cortar um potão de Amoeba com faca incandescente.





Comentários