O homem que caminha sozinho
- 3 de jan.
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Por Renato Andrade

Eu o vejo quase todos os dias. Ele usa um chapéu, veste camiseta, bermuda, tênis, carrega uma mochila nas costas e usa óculos. De vez em quando dá uma tragada no cigarro eletrônico. Sim, isso é intrigante. Fumar enquanto se faz uma caminhada, mas não é o que me desperta curiosidade. A sua pequena mochila é que me faz devanear. Fico imaginando o que ele pode carregar ali. Água, barrinhas de cereais, fruta
Sei que ele mora na redondeza. Pelos meus cálculos ele deve iniciar a caminhada lá pelas 7 da manhã e anda bastante. Nos cumprimentamos algumas vezes. Um rápido, objetivo, direto e eficiente “bom dia”. E só. Seu ritmo de caminhada é bom. Nem lento nem acelerado. Nessa toada ele cobre uma distância considerável. Pelo que já pude observar ele não tem um trajeto fixo. Cada dia percorre um novo caminho.
Gosto disso. Já pensei em puxar um assunto com ele, mas pela sua expressão me parece que jogar conversa fora não lhe interessa muito. Me entendam, não estou insinuando que transpareça antipatia ou azedume. De jeito nenhum. Ele parece carregar uma certa serenidade e calma no olhar. Apenas intuo que essa caminhada diária é uma atividade muito importante para ele, algo até meio ritualístico.
Essa impressão me leva, respeitosamente, a não incomodá-lo com platitudes inúteis como um comentário sobre o céu nublado ou o calor excessivo. De mais a mais, eu vou ouvindo música e, para tentar entabular uma prosa, teria que executar uma operação aparentemente simples e rápida, mas que para mim se torna algo, digamos, complexa.
Explico. Levo a Café pela coleira com a mão esquerda e carrego o celular com a direita. Não enxergo as letrinhas das legendas do YouTube Music sem meus óculos para perto, que vão pendurados na gola da camiseta. A Café é meio antissocial, às vezes pode estranhar eu parar para conversar com alguém.
Bom, acho que vocês já sacaram pela descrição que parar, botar o zócru, pausar a música, controlar a bichinha, tudo isso ao mesmo tempo só pra entabular uma conversa fiada com um estranho … milhor não. Deixa literalmente quieto.
No mais, gosto de uma certa aura de mistério que envolve o homem que caminha sozinho. Imagino que ele deve ter mais ou menos a minha idade. Também já deve ter passado por poucas e boas nessa vida. Se permite dar umas baforadas no bastonete de tabaco e não tá nem aí para o que os outros irão pensar. Eu, na minha xeretice provavelmente iria perguntar o que ele carrega na mochila. Além de ser invasivo e quase grosseiro penso que quebraria certo encanto.
Muitas vezes nossa imaginação e deduções nos levam para recantos onde fantasiamos uma realidade paralela menos prosaica e sem graça. O homem solitário não deve carregar na mochila os originais de um livro que mudaria o rumo da literatura mundial. Tampouco fotografias comprometedoras de um político importante. Existe uma possibilidade imensa da resposta do diálogo se desenrolar assim:
- Com licença, me desculpe a curiosidade invasiva, mas o que o senhor carrega nessa mochila?
- Nada.
Tem dias que eu saio para caminhar com a sensação de estar carregando um universo caótico em minha mente. Antes da endorfina começar a fazer seu milagroso efeito nessa carcaça já meio alquebrada, levo uma metafórica mochila lotada de dúvidas, inseguranças e desencantos que pesam na cacunda. Daí o Johnny Cash solta o vozeirão bem na hora da “ladeira do enfarto” e o suor começa a lavar a alma e a enxaguar do corpo antigos, incômodos e, providencialmente, cada dia menos recorrentes enredos fantasmagóricos e definitivamente daninhos.
Lembro do homem que caminha sozinho e quase já não invejo mais sua aparente serenidade. Chego no alto da subida e agora o Paulinho Boca de Cantor me desvenda os “Mistérios do Planeta”. A mochila imaginária nas minhas costas está leve e hoje só carrega coisas boas.





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