Invasor
- Angelo Davanço

- 1 de mar.
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Por Renato Andrade

Quando desce a escada pela manhã já percebe sua presença. A movimentação estabanada entre a sala e a cozinha indica que o não convidado entrou e busca desesperadamente uma maneira de se retirar. É aí que o quase nonsense da situação ditará o termômetro do humor que irá nortear o dia do anfitrião, ainda e também sem prumo, provocado pela ausência do primeiro café.
O teatro ali estabelecido com as duas criaturas atônitas pode provocar riso, apreensão ou inexplicada irritação. Ou, no caso de hoje cedo, a mais prosaica e desinteressada convivência.
Abriu as janelas, as portas e, enquanto passava o precioso e fumegante líquido negro, aguardava o desfecho da busca desenfreada.
Eis que, estrategicamente aboletado sobre a longa mesa, o invasor ergueu seus pequenos e escuros olhos em direção ao confuso e levemente opaco olhar humano. Parecia intimar o colega de cena para o esquete bufão de rasantes e perseguição.
Com a recusa do parceiro, o pequeno pardal partiu. Levando consigo talvez misteriosa frustração. Para quem tem o dom de voar e não carrega nas asas ranços, mesquinhezas, egoísmos e outras imperfeições, deixar de brincar numa manhã radiosa talvez seja a prova concreta e irrefutável de nossa inferioridade racional.




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